Polvos sonham? A cena que intrigou os cientistas

A pergunta se polvos sonham ganhou força depois que pesquisadores filmaram polvos mudando de cor e textura de pele repetidamente enquanto dormiam, como se estivessem “encenando” alguma cena. O comportamento lembra tanto os movimentos de um sonho que virou tema sério de estudo na biologia marinha.

Um dos vídeos mais comentados na comunidade científica mostra um polvo de cativeiro passando, em poucos segundos, por uma sequência de cores e padrões de pele associados normalmente a caça, camuflagem e fuga de predadores – tudo isso enquanto o animal permanecia com os olhos fechados e imóvel.

O que os cientistas realmente descobriram

Estudos publicados por neurocientistas que estudam cefalópodes identificaram, nos polvos, dois estágios de sono distintos: um período “quieto”, mais parecido com o sono profundo, e um período “ativo”, em que a respiração acelera, os olhos se movem e a pele muda de cor rapidamente – um padrão que lembra o sono REM dos mamíferos, fase em que os humanos sonham.

Isso não prova, de forma definitiva, que polvos sonham como nós – eles não podem contar o que “viram” -, mas sugere que o cérebro do animal processa memórias recentes durante o sono de um jeito muito mais sofisticado do que se imaginava.

Por que isso é tão surpreendente

Polvos são invertebrados, com um sistema nervoso completamente diferente do nosso – inclusive distribuído em parte pelos próprios tentáculos, não só na cabeça. Encontrar sinais de um padrão de sono parecido com o REM em um animal tão distante dos mamíferos na árvore evolutiva sugere que dormir e, possivelmente, sonhar, pode ter surgido de forma independente diversas vezes ao longo da evolução.

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Como os cientistas estudam o sono de um animal que não fala

Sem conseguir perguntar “o que você sonhou?”, os pesquisadores recorrem a câmeras de alta velocidade, sensores de atividade cerebral e comparações estatísticas entre os padrões de cor exibidos durante o sono e os padrões que o mesmo polvo usa quando está acordado, caçando ou se escondendo de um predador.

Quando as cores do “sono ativo” batem com as cores de comportamentos reais – como perseguir um caranguejo ou se camuflar contra uma pedra -, a hipótese de que o polvo está “reproduzindo” uma memória ganha ainda mais força entre os cientistas.

Outros animais que também intrigam os cientistas do sono

Polvos não estão sozinhos nessa lista de mistérios. Golfinhos, por exemplo, dormem com apenas metade do cérebro de cada vez, mantendo um olho aberto para continuar alerta a predadores. Aves migratórias também conseguem “cochilar” em pleno voo, alternando hemisférios cerebrais em descanso.

Esses exemplos mostram que o sono, longe de ser um processo único e padronizado, se adaptou de formas muito diferentes ao longo da evolução, dependendo das necessidades de sobrevivência de cada espécie.

O que vem a seguir nessa pesquisa

Equipes de universidades como a de Massachusetts, nos Estados Unidos, seguem estudando o cérebro dos cefalópodes para entender melhor essa fase ativa do sono. Segundo divulgado pela Smithsonian Institution, o estudo de cefalópodes tem revelado repetidamente que esses animais são muito mais cognitivamente complexos do que se acreditava até poucas décadas atrás.

Enquanto a ciência não tem uma resposta definitiva sobre se polvos sonham exatamente como humanos, uma coisa já parece clara: o sono desses animais é bem mais interessante – e cheio de cores – do que qualquer um imaginava.

Até que novos experimentos tragam respostas mais definitivas, a hipótese de que polvos sonham continua sendo uma das ideias mais fascinantes da biologia marinha atual, e deve seguir rendendo descobertas surpreendentes nos próximos anos.