Depois de quase oito anos atravessando o Sistema Solar interno, a missão BepiColombo entrou nesta quinta-feira (3) em uma de suas fases mais delicadas. O Mercury Transfer Module (MTM), responsável por transportar e impulsionar a espaçonave durante a longa viagem desde a Terra, separou-se com sucesso dos dois orbitadores científicos que seguirão até Mercúrio.

A operação ocorreu a mais de 200 milhões de quilômetros da Terra e marcou o início efetivo da sequência de chegada ao planeta mais próximo do Sol. Antenas da rede de espaço profundo da Agência Espacial Europeia (ESA), localizadas na Espanha e na Argentina, receberam os sinais que confirmaram a separação. A telemetria inicial indicou que os sistemas estavam funcionando normalmente e que os painéis solares do orbitador europeu já alimentavam suas baterias.

A missão, realizada conjuntamente pela ESA e pela Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA), ainda não entrou em órbita de Mercúrio. Isso está previsto para 21 de novembro de 2026.

Até lá, uma série de manobras cuidadosamente calculadas precisará ocorrer sem erros.

O módulo que levou a BepiColombo até Mercúrio cumpriu sua missão

Desde o lançamento, em 20 de outubro de 2018, a BepiColombo viajou em uma configuração que reunia diferentes componentes.

O Mercury Transfer Module ficava na base do conjunto e funcionava, na prática, como o sistema de transporte interplanetário da missão.

Construído pela ESA, ele forneceu energia e propulsão durante boa parte da viagem, carregando consigo os dois equipamentos que realmente irão estudar Mercúrio: o Mercury Planetary Orbiter (MPO), europeu, e o Mercury Magnetospheric Orbiter, conhecido como Mio, desenvolvido pela JAXA.

Havia ainda o MOSIF, um escudo projetado para proteger o orbitador japonês durante a viagem.

Agora, o MTM não é mais necessário.

Com sua separação, o sistema de propulsão química do MPO assume a responsabilidade pelas próximas correções de trajetória e pelas complexas manobras necessárias para entrar em órbita.

Confirmação só chegou depois de uma espera tensa

Separar componentes de uma espaçonave seria uma operação delicada mesmo perto da Terra. A centenas de milhões de quilômetros de distância, o desafio assume outra dimensão.

Não existe possibilidade de intervenção humana em tempo real.

Os comandos precisam ser preparados antecipadamente, enquanto computadores de bordo executam as etapas programadas.

Nesta quinta-feira, a equipe primeiro detectou uma alteração no chamado sinal Doppler recebido da espaçonave. A mudança na frequência das ondas de rádio indicava que a velocidade da BepiColombo havia se alterado exatamente como seria esperado depois da separação.

Era um forte indício de que tudo havia funcionado.

A confirmação definitiva veio posteriormente, quando as antenas da ESA em Cebreros e Malargüe estabeleceram comunicação com a espaçonave restante.

A agência informou que a telemetria mostrava sistemas nominais.

Depois de bilhões de quilômetros percorridos, MPO e Mio estavam oficialmente sem o módulo que os acompanhou desde a Terra.

Por que chegar a Mercúrio leva tanto tempo?

À primeira vista, a viagem parece contraditória.

Mercúrio está muito mais perto da Terra do que planetas como Júpiter ou Saturno. Ainda assim, colocar uma espaçonave em órbita ao redor dele é extremamente difícil.

O problema está no Sol.

Quanto mais uma nave avança em direção à estrela, mais a gravidade solar a acelera. Uma espaçonave enviada diretamente para a região de Mercúrio poderia chegar rápido demais para ser capturada pela pequena gravidade do planeta.

Ela simplesmente passaria pelo destino.

Por isso, alcançar Mercúrio não significa apenas percorrer uma determinada distância. É necessário reduzir cuidadosamente a energia orbital da espaçonave.

A BepiColombo fez isso aproveitando encontros próximos com outros planetas.

Foram nove sobrevoos planetários durante a viagem

Ao longo de sua trajetória, a missão realizou nove assistências gravitacionais.

Foram:

  • um sobrevoo da Terra;
  • dois sobrevoos de Vênus;
  • seis sobrevoos de Mercúrio.

Cada passagem permitiu modificar a velocidade e a direção da nave sem depender exclusivamente de combustível.

O primeiro encontro gravitacional ocorreu com a Terra em abril de 2020. Depois vieram Vênus e, posteriormente, sucessivas aproximações de Mercúrio.

O sexto e último sobrevoo do planeta aconteceu em 8 de janeiro de 2025.

Essas passagens também permitiram antecipar parte da ciência da missão. Instrumentos que podiam funcionar mesmo com os orbitadores ainda unidos realizaram medições do ambiente magnético de Mercúrio, enquanto as câmeras de monitoramento produziram imagens impressionantes da superfície coberta por crateras.

O trabalho principal, porém, ainda nem começou.

Propulsores de íons fizeram parte da viagem durante anos

Boa parte da trajetória da BepiColombo foi possível graças a uma tecnologia muito diferente daquela utilizada nos grandes foguetes que deixam a Terra.

O MTM possuía quatro propulsores elétricos QinetiQ T6.

Eles utilizavam eletricidade produzida pelos painéis solares para ionizar gás xenônio. Os átomos eletricamente carregados eram então acelerados e lançados para fora do propulsor em velocidades de aproximadamente 50 quilômetros por segundo.

O empuxo produzido por esse sistema é pequeno quando comparado ao de um motor químico tradicional.

A vantagem aparece no tempo.

Os motores podem permanecer funcionando por períodos prolongados, modificando lentamente a velocidade da espaçonave com enorme eficiência no consumo de propelente.

Foi justamente essa tecnologia que permitiu realizar uma das trajetórias interplanetárias mais complexas já planejadas pela ESA.

Motores elétricos foram desligados definitivamente em junho

O fim do MTM começou antes da separação desta quinta-feira.

Em 15 de junho de 2026, os motores de propulsão elétrica foram desligados pela última vez.

Segundo a ESA, aquele momento encerrou oficialmente o longo período de cruzeiro interplanetário da missão.

A BepiColombo passou então a percorrer temporariamente uma trajetória essencialmente balística, até chegar ao momento de abandonar o módulo de transferência.

Agora, os pequenos motores químicos do MPO assumem o controle.

Eles terão uma responsabilidade enorme nos próximos meses.

BepiColombo enfrentou um problema sério em 2024

A chegada a Mercúrio poderia ter acontecido antes.

Em abril de 2024, engenheiros detectaram um problema no Mercury Transfer Module que impedia os propulsores elétricos de receberem toda a potência necessária.

As investigações encontraram correntes elétricas inesperadas entre os painéis solares do MTM e a unidade responsável por distribuir energia pelo sistema.

As equipes conseguiram recuperar grande parte do desempenho, mas os motores permaneceram abaixo do nível originalmente planejado.

A consequência poderia ser grave: a potência disponível não seria suficiente para seguir a trajetória originalmente prevista para a inserção em Mercúrio em dezembro de 2025.

A solução foi mudar o caminho.

Especialistas de dinâmica de voo da ESA calcularam uma nova trajetória que utilizava os últimos sobrevoos de Mercúrio para reduzir a necessidade de propulsão.

A chegada acabou sendo adiada para 2026, mas os objetivos científicos principais da missão foram preservados.

Separação do MTM é apenas a primeira etapa

O sucesso desta quinta-feira não significa que a parte mais perigosa terminou.

Na realidade, ela está começando.

A ESA descreve a chegada da BepiColombo como uma sequência que se prolongará por aproximadamente seis meses e envolverá diversas operações realizadas apenas uma vez durante toda a missão.

A próxima data decisiva é 21 de novembro.

Nesse dia, MPO e Mio, ainda unidos, deverão ser capturados pela gravidade de Mercúrio e entrar em uma órbita polar.

Depois começará outra sequência de separações.

O calendário previsto para a chegada

3 de setembro de 2026: separação do Mercury Transfer Module.

21 de novembro de 2026: MPO e Mio entram juntos em órbita de Mercúrio.

9 e 10 de dezembro de 2026: o orbitador europeu libera Mio em sua órbita polar elíptica.

16 de dezembro de 2026: o escudo solar MOSIF é descartado.

10 de março de 2027: MPO chega à sua órbita científica definitiva.

6 de abril de 2027: começa oficialmente a fase científica da missão.

As datas ainda podem sofrer ajustes operacionais.

Entrada em órbita exigirá uma longa sequência de manobras

A inserção orbital não será resolvida com uma única queima de motor.

De acordo com a ESA, a sequência prevista envolve 16 manobras de propulsão, começando com a captura em novembro e continuando até março de 2027.

Mio será colocado primeiro em sua órbita científica.

O MPO continuará utilizando seus propulsores para gradualmente alterar sua própria trajetória até alcançar a altitude planejada.

Somente quando os dois estiverem posicionados e seus instrumentos tiverem passado por verificações começará a fase científica.

Essa arquitetura é uma das características que tornam a missão inédita.

Duas espaçonaves vão observar Mercúrio ao mesmo tempo

BepiColombo será a primeira missão a estudar Mercúrio utilizando dois orbitadores simultaneamente.

Eles possuem funções complementares.

O Mercury Planetary Orbiter ficará mais próximo do planeta e concentrará boa parte de seu trabalho na superfície, composição, estrutura interna e ambiente imediato de Mercúrio.

Mio seguirá uma órbita polar mais ampla e elíptica, permitindo investigar especialmente o campo magnético, partículas carregadas e a interação do planeta com o vento solar.

Juntos, os dois permitirão observar simultaneamente fenômenos em diferentes regiões.

Isso pode resolver uma dificuldade enfrentada por missões anteriores: separar alterações que ocorrem porque a espaçonave mudou de posição daquelas que realmente aconteceram no ambiente de Mercúrio.

São 16 instrumentos científicos

Os dois orbitadores carregam juntos 16 conjuntos de instrumentos científicos.

No MPO estão equipamentos capazes de analisar a composição química da superfície, produzir imagens em diferentes comprimentos de onda, medir relevo, investigar temperaturas e estudar o campo magnético.

Entre eles está o BELA, um altímetro a laser que permitirá determinar com precisão a altura e a forma do terreno.

O SIMBIO-SYS produzirá imagens e dados espectrais da superfície, enquanto o MERTIS estudará minerais e temperaturas no infravermelho.

Mio concentra instrumentos direcionados à magnetosfera, plasma, partículas, poeira e à tênue exosfera do planeta.

A combinação pretende produzir uma visão de Mercúrio muito mais completa do que foi possível anteriormente.

Cientistas querem saber do que Mercúrio realmente é feito

Mercúrio é pequeno, extremamente denso e possui um núcleo metálico desproporcionalmente grande.

Isso levanta uma pergunta que permanece aberta há décadas: como o planeta se formou dessa maneira?

Uma possibilidade é que Mercúrio tenha perdido boa parte de suas camadas externas durante algum enorme impacto no início do Sistema Solar.

Outra hipótese envolve as condições extremas existentes perto do Sol durante a formação dos planetas.

Dados detalhados sobre os elementos químicos encontrados na superfície podem ajudar a distinguir entre esses cenários.

BepiColombo também investigará a estrutura interna do planeta e seu campo gravitacional.

O campo magnético é outro grande mistério

Mercúrio é o único planeta rochoso além da Terra que possui atualmente um campo magnético global gerado internamente.

Mas ele é muito mais fraco que o terrestre.

Sua magnetosfera também é constantemente atingida pelo vento solar devido à pequena distância em relação ao Sol.

Esse ambiente muda rapidamente.

Ter duas sondas fazendo medições simultâneas permitirá acompanhar como partículas provenientes do Sol comprimem, deformam e atravessam a região magnética ao redor do planeta.

Mio foi desenvolvido especialmente para investigar esse ambiente.

Existe gelo no planeta mais próximo do Sol?

Outra aparente contradição de Mercúrio está em seus polos.

Apesar de a temperatura superficial poder ultrapassar 400 °C durante o dia em algumas regiões, existem crateras polares profundas onde a luz solar nunca chega diretamente.

Esses locais permanecem permanentemente sombreados e extremamente frios.

Observações anteriores encontraram fortes evidências da presença de depósitos de gelo de água nesses pontos.

O MPO poderá observar as regiões polares com instrumentos mais sofisticados e ajudar a determinar melhor a distribuição e as características desses depósitos.

Descobrir de onde essa água veio também pode fornecer pistas sobre como compostos voláteis foram distribuídos pelo Sistema Solar primitivo.

BepiColombo será apenas a segunda missão a orbitar Mercúrio

Apesar de sua relativa proximidade, Mercúrio recebeu poucas visitas.

A primeira espaçonave a explorar o planeta foi a Mariner 10, da NASA, que realizou três sobrevoos na década de 1970.

Décadas depois, a missão MESSENGER tornou-se a primeira a entrar em órbita de Mercúrio, permanecendo ao redor do planeta de 2011 a 2015.

BepiColombo será apenas a segunda missão da história a colocar uma espaçonave em órbita do planeta — e a primeira a fazer isso com dois veículos científicos operando simultaneamente.

Isso explica por que ainda existem tantas perguntas básicas sobre o mundo mais interno do Sistema Solar.

Oito anos de viagem estão chegando ao ponto decisivo

A separação do MTM representa uma mudança simbólica e técnica.

Durante quase oito anos, o módulo foi o responsável por carregar os dois orbitadores através de uma rota que passou pela Terra, Vênus e repetidamente por Mercúrio.

Seus motores elétricos trabalharam durante longos períodos. A equipe precisou superar uma falha no sistema de potência, redesenhar parte da trajetória e adiar a chegada sem comprometer os objetivos científicos.

Agora, o equipamento que tornou essa viagem possível ficou para trás.

MPO e Mio terão de completar sozinhos as etapas restantes.

A missão ainda enfrenta meses de operações delicadas, mas, pela primeira vez desde o lançamento em 2018, os dois observatórios científicos estão praticamente às portas do local para o qual foram construídos.

Se o cronograma for cumprido, abril de 2027 marcará o início de uma nova era na exploração de Mercúrio.

Perguntas frequentes

O que aconteceu com a BepiColombo em 3 de setembro de 2026?

O Mercury Transfer Module, responsável pelo transporte e pela propulsão durante a viagem interplanetária, separou-se com sucesso dos orbitadores MPO e Mio. O evento marcou o início da fase de chegada a Mercúrio.

A BepiColombo já está orbitando Mercúrio?

Não. A entrada em órbita está prevista para 21 de novembro de 2026. Os dois orbitadores permanecerão inicialmente unidos antes de se separarem em dezembro.

Quanto tempo a BepiColombo levou para chegar a Mercúrio?

A missão foi lançada em 20 de outubro de 2018 e inicia sua chegada definitiva em 2026, depois de quase oito anos de viagem pelo Sistema Solar interno.

Por que a viagem até Mercúrio demora oito anos?

Chegar ao planeta exige reduzir a velocidade adquirida pela espaçonave ao se aproximar do Sol. Para conseguir isso com um consumo viável de combustível, BepiColombo realizou nove assistências gravitacionais envolvendo Terra, Vênus e o próprio Mercúrio.

Quando começam as pesquisas científicas da BepiColombo?

A fase científica está programada para começar em 6 de abril de 2027, depois que MPO e Mio alcançarem suas respectivas órbitas e concluírem a preparação dos instrumentos.

O que a BepiColombo vai estudar em Mercúrio?

A missão investigará a composição e a geologia da superfície, estrutura interna, campo magnético, exosfera, magnetosfera, interação com o vento solar e a origem e evolução do planeta.

Quais são as duas sondas da BepiColombo?

São o Mercury Planetary Orbiter (MPO), da ESA, e o Mercury Magnetospheric Orbiter, chamado Mio, desenvolvido pela JAXA.