Uma enorme região em que o campo magnético da Terra é mais fraco passa sobre a América do Sul e o Atlântico Sul, alcançando boa parte do território brasileiro. Conhecida como Anomalia Magnética do Atlântico Sul (AMAS), ela não é nova, mas está mudando: medições feitas do espaço mostram que a área enfraquecida cresceu de maneira significativa nos últimos anos e continua sendo acompanhada de perto por cientistas.
O nome e as imagens produzidas pelos satélites podem causar a impressão de que existe uma espécie de “zona de perigo” sobre o Brasil. Para quem vive na superfície, porém, a situação é bem menos alarmante. A NASA afirma que a anomalia atualmente não produz impactos visíveis na vida cotidiana no solo. O problema é muito mais importante centenas de quilômetros acima de nossas cabeças, onde satélites e instrumentos espaciais ficam mais expostos à radiação de partículas energéticas.
O fenômeno também ganhou um novo capítulo. Dados divulgados pela Agência Espacial Europeia (ESA) mostram que, entre 2014 e 2025, a região de campo enfraquecido expandiu-se por uma área equivalente a quase metade da Europa continental. Mais do que simplesmente crescer, a anomalia apresenta mudanças internas que ajudam os pesquisadores a entender o que está acontecendo milhares de quilômetros abaixo da superfície terrestre.
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O que é a Anomalia Magnética do Atlântico Sul?
A Terra é cercada por um enorme campo magnético que se estende para o espaço e ajuda a proteger o planeta contra partículas carregadas vindas do Sol e contra parte da radiação cósmica.
Esse campo nasce principalmente no interior do planeta. A cerca de 3 mil quilômetros de profundidade, movimentos do ferro líquido no núcleo externo produzem correntes elétricas que, por sua vez, ajudam a gerar o campo magnético terrestre. É o chamado geodínamo.
O campo, entretanto, não possui exatamente a mesma intensidade em todos os lugares.
Sobre a América do Sul e o Atlântico Sul existe uma grande depressão de intensidade magnética. É essa região que recebe o nome de Anomalia Magnética do Atlântico Sul.
Um projeto do Observatório Nacional classifica a AMAS como a maior anomalia do campo geomagnético terrestre e aponta intensidades reduzidas da ordem de 22 mil nanoteslas em sua região.
Em termos simples, é como se o escudo magnético terrestre tivesse uma área relativamente mais fraca sobre essa parte do planeta.
Isso não significa que exista um “buraco” aberto no campo magnético. O campo continua presente, mas sua configuração permite que partículas energéticas presas ao redor da Terra alcancem altitudes menores nessa região.
Por que justamente o Brasil está embaixo dessa região?
A posição da anomalia está relacionada à própria estrutura do campo magnético terrestre.
O eixo magnético do planeta não está perfeitamente alinhado ao eixo de rotação. Além disso, os movimentos do ferro líquido no núcleo externo são extremamente complexos e mudam com o tempo.
A NASA explica que a combinação entre a inclinação do eixo magnético e os movimentos do material no núcleo contribui para a formação da AMAS.
Há ainda estruturas mais complexas envolvidas.
Os dados mais recentes da missão Swarm, da ESA, indicam que existem regiões na fronteira entre o núcleo externo líquido e o manto em que o fluxo magnético apresenta orientação diferente daquela que seria esperada em um modelo mais simples do campo terrestre.
Essas chamadas regiões de fluxo reverso ajudam a reduzir a intensidade observada do campo na área da anomalia. Uma dessas estruturas vem se deslocando para oeste sob a região africana, contribuindo para mudanças observadas na AMAS.
É uma lembrança importante de que o planeta não funciona como um ímã de geladeira perfeitamente estável.
O campo magnético está vivo do ponto de vista geofísico: ele se fortalece em algumas regiões, enfraquece em outras e muda à medida que o interior da Terra se transforma.
A anomalia realmente está crescendo?
Sim, mas é importante entender exatamente o que isso significa.
A missão Swarm, formada por satélites da Agência Espacial Europeia dedicados ao estudo do campo magnético terrestre, reuniu 11 anos de medições entre 2014 e 2025.
A análise revelou que a região enfraquecida da Anomalia Magnética do Atlântico Sul continuou se expandindo nesse período. Segundo a ESA, a área adicionada desde 2014 corresponde a quase metade do tamanho da Europa continental.
O comportamento também não é uniforme.
Desde aproximadamente 2020, uma área do Atlântico localizada a sudoeste da África apresentou um enfraquecimento particularmente intenso. Os pesquisadores destacam que a AMAS não deve mais ser imaginada simplesmente como uma única mancha homogênea.
Há diferentes regiões evoluindo em ritmos diferentes.
Isso ajuda a explicar por que mapas recentes podem mostrar formatos distintos daqueles observados algumas décadas atrás.
A mudança já vinha sendo observada há décadas
O crescimento recente não surgiu repentinamente.
Dados apresentados pela ESA em 2020 mostravam que, entre 1970 e 2020, a intensidade mínima do campo na região havia diminuído aproximadamente de 24 mil para 22 mil nanoteslas.
Nesse mesmo intervalo, a área enfraquecida cresceu e apresentou deslocamento para oeste. Na avaliação publicada naquele momento, a movimentação ocorria em torno de 20 quilômetros por ano.
Outro fenômeno já chamava a atenção: o surgimento de um segundo centro de baixa intensidade a sudoeste da África.
A NASA também identificou essa mudança de morfologia. Dados analisados pela agência apontaram que a região mínima estava se dividindo em dois lóbulos, algo especialmente relevante para missões espaciais porque aumenta a complexidade de prever onde a exposição à radiação será mais intensa.
Portanto, a AMAS não está simplesmente “aumentando sobre o Brasil”. Ela está mudando de tamanho, intensidade, posição e formato.
Onde está o verdadeiro perigo da anomalia?
É no espaço próximo à Terra que a palavra “perigo” passa a fazer mais sentido.
A magnetosfera ajuda a controlar o movimento de partículas energéticas. Algumas delas ficam aprisionadas nos chamados cinturões de Van Allen, grandes regiões de radiação ao redor do planeta.
Na área da AMAS, devido à menor intensidade do campo magnético, partículas desses cinturões conseguem chegar a altitudes menores.
Isso é particularmente importante para satélites de órbita baixa.
Quando uma partícula altamente energética atinge um componente eletrônico, pode provocar uma alteração conhecida como single-event upset, ou evento de efeito único. Em determinados casos, isso pode resultar em erros temporários de computador, perda de dados, reinicialização de equipamentos e até danos permanentes em componentes sensíveis.
Por esse motivo, operadores de missões espaciais precisam conhecer precisamente a localização e a evolução da anomalia.
Algumas espaçonaves chegam a desligar instrumentos não essenciais durante a passagem pela região para reduzir o risco de problemas.
Até a Estação Espacial Internacional atravessa a AMAS
A Anomalia Magnética do Atlântico Sul também alcança altitudes utilizadas pela Estação Espacial Internacional.
Isso não significa que os astronautas fiquem automaticamente em perigo cada vez que a estação passa pela região. A NASA informa que a ISS possui proteção adequada e seus tripulantes permanecem protegidos.
Instrumentos instalados na parte externa da estação, entretanto, podem sentir os efeitos da radiação adicional.
A agência já relatou, por exemplo, eventos detectados pelo instrumento GEDI, utilizado para estudar a estrutura das florestas. A passagem pela anomalia pode produzir registros anormais nos detectores e ocasionalmente provocar reinicializações de placas eletrônicas.
É uma demonstração prática da diferença entre os efeitos no espaço e no solo.
Para uma pessoa caminhando pelo Brasil, nada perceptível acontece quando ela está “dentro” da AMAS. Para um equipamento eletrônico sofisticado orbitando centenas de quilômetros acima, a localização pode ser relevante.
A anomalia pode fazer celulares pararem de funcionar?
Não há evidência de que a AMAS faça celulares comuns simplesmente deixarem de funcionar quando estão no Brasil.
Essa interpretação mistura dois fenômenos diferentes.
O risco direto documentado está principalmente relacionado a satélites e equipamentos espaciais que atravessam regiões de maior exposição a partículas energéticas. A própria NASA afirma que a anomalia não causa atualmente impactos visíveis na vida cotidiana na superfície.
É possível existir uma consequência indireta se um satélite responsável por determinada aplicação sofrer uma falha, mas sistemas espaciais são projetados levando em consideração ambientes de radiação e as características da AMAS.
Portanto, afirmar que morar no Brasil significa estar em uma região onde celulares, internet ou aparelhos eletrônicos podem simplesmente parar por causa da anomalia seria um exagero.
O problema tecnológico real é muito mais específico e está concentrado principalmente no ambiente orbital.
GPS e navegação também entram na discussão
Existe outra relação importante entre campo magnético e tecnologia que não deve ser confundida com falhas diretas provocadas pela AMAS.
As medições da missão Swarm ajudam a construir modelos globais do campo magnético utilizados em aplicações de navegação e também no estudo do clima espacial. A ESA destaca que os dados são fundamentais para acompanhar mudanças que ocorrem tanto no interior da Terra quanto no ambiente espacial.
Isso significa que conhecer com precisão como o campo está mudando é importante para tecnologias modernas.
Mas novamente existe uma diferença entre monitorar o campo para manter modelos de navegação precisos e dizer que a presença da anomalia provoca diariamente falhas de GPS no Brasil.
Não são afirmações equivalentes.
Quem mora no Brasil corre algum risco para a saúde?
As evidências disponíveis não indicam um risco adicional significativo para as pessoas que vivem na superfície simplesmente por estarem dentro da área geográfica da AMAS.
A atmosfera terrestre continua sendo uma camada extremamente importante de proteção contra radiação.
A NASA afirma diretamente que, embora partículas solares e raios cósmicos possam representar um problema para componentes de espaçonaves na região da anomalia, eles não afetam a vida na superfície terrestre da mesma maneira.
A Agência Espacial Europeia também já ressaltou que, ao nível do solo, a AMAS não representa motivo para alarme.
Assim, a expressão “zona de perigo sobre o Brasil” precisa sempre de contexto.
Ela descreve razoavelmente um desafio para determinadas operações no espaço. Para a população em solo, pode criar uma impressão de ameaça que os dados científicos atuais não sustentam.
Isso significa que o campo magnético da Terra está desaparecendo?
Não.
O campo magnético terrestre muda continuamente.
Segundo a NASA e a ESA, a intensidade média global diminuiu aproximadamente 9% nos últimos 200 anos. Ao mesmo tempo, porém, o comportamento não é igual em todas as regiões: algumas áreas enfraquecem enquanto outras apresentam fortalecimento.
Os dados mais recentes da Swarm ilustram bem essa dinâmica.
Enquanto a Anomalia Magnética do Atlântico Sul se expandiu, por exemplo, o campo sobre partes da Sibéria ficou mais intenso. A ESA também observou alterações significativas nas regiões de campo forte próximas ao Canadá e à Sibéria.
O planeta, portanto, não está simplesmente perdendo sua proteção magnética de maneira uniforme.
Trata-se de um sistema muito mais complexo.
A AMAS é sinal de que os polos da Terra vão se inverter?
Essa é uma das dúvidas mais frequentes sempre que a anomalia ganha destaque.
A Terra realmente já passou por numerosas inversões geomagnéticas. Nesses períodos, as polaridades magnéticas norte e sul acabam trocando de posição.
O registro geológico demonstra que isso aconteceu muitas vezes ao longo da história do planeta. A última inversão completa ocorreu há cerca de 780 mil anos.
Isso não significa, contudo, que a AMAS seja uma prova de que uma nova inversão esteja prestes a ocorrer.
A ESA afirma que o enfraquecimento observado na região está dentro das variações consideradas normais para o campo terrestre. A NASA também ressalta que os cientistas não têm motivo para concluir que uma inversão seja iminente.
Outro detalhe importante é a escala de tempo.
Inversões não acontecem de uma hora para outra. O processo pode levar centenas ou milhares de anos.
Portanto, não existe evidência científica de que a AMAS seja o anúncio de uma mudança catastrófica repentina nos polos terrestres.
O Brasil virou um laboratório natural para estudar o fenômeno
Para a ciência brasileira, estar sob a influência da anomalia oferece uma oportunidade rara.
O Observatório Nacional mantém pesquisas direcionadas à AMAS e destaca que grande parte do território brasileiro está submetida a um campo magnético consideravelmente mais fraco do que outras regiões do planeta.
Projetos da instituição analisam medições realizadas por magnetômetros instalados no território nacional para compreender como a anomalia influencia pulsações geomagnéticas e fenômenos relacionados ao clima espacial.
O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais também mantém atividades relacionadas ao tema. O programa NanoSatC-Br, por exemplo, inclui entre seus objetivos o monitoramento das condições geomagnéticas na superfície e em órbita sobre as regiões da AMAS.
Em 2026, o assunto ganhou ainda mais espaço na agenda científica brasileira.
O INPE programou para setembro um simpósio dedicado a observações espaciais e terrestres da Anomalia Magnética do Atlântico Sul. Entre os objetivos está a construção de um sistema integrado de monitoramento, além do aprofundamento da cooperação científica entre Brasil e China na área de clima espacial.
Isso mostra por que a anomalia interessa muito mais aos pesquisadores do que apenas pelo seu aspecto curioso.
Ela envolve ciência básica, segurança espacial, engenharia de satélites, navegação e a compreensão do próprio interior da Terra.
O que os cientistas ainda querem descobrir?
Uma das grandes questões é entender exatamente como a AMAS continuará evoluindo.
Os pesquisadores já conseguem medir com grande precisão suas mudanças, mas explicar todos os processos que ocorrem no interior do planeta é muito mais difícil.
A própria ESA destaca que a evolução recente provavelmente está associada a estruturas do campo geradas na fronteira entre o núcleo e o manto, incluindo as regiões de fluxo reverso.
Os modelos precisam ainda determinar como essas estruturas irão se movimentar nas próximas décadas.
Também existe interesse prático.
Quanto melhor for a previsão da posição da AMAS, mais preparados poderão estar operadores de satélites para planejar trajetórias, proteger componentes eletrônicos e administrar instrumentos durante as passagens pelas áreas de maior radiação.
A NASA utiliza observações de satélites, medições em solo e modelos físicos justamente para acompanhar essas mudanças e melhorar previsões sobre o comportamento futuro da anomalia.
Uma ameaça invisível, mas não para quem está andando nas ruas
A Anomalia Magnética do Atlântico Sul é real, enorme e está mudando.
As medições feitas do espaço mostram uma região enfraquecida que aumentou consideravelmente desde 2014 e apresenta transformações internas importantes. Parte relevante dela passa sobre o Brasil, tornando o país um ponto estratégico para pesquisas geomagnéticas.
O impacto, entretanto, precisa ser colocado na escala correta.
Para satélites e determinados instrumentos espaciais, a AMAS é uma região que exige atenção porque partículas energéticas podem atingir equipamentos com mais facilidade.
Para milhões de brasileiros vivendo na superfície, não existe atualmente evidência de que atravessar essa “zona invisível” represente perigo direto à saúde ou provoque alguma mudança perceptível na rotina.
O aspecto mais fascinante da anomalia talvez esteja justamente aí: uma estrutura criada por movimentos de metal líquido a milhares de quilômetros sob nossos pés consegue alterar o ambiente espacial centenas de quilômetros acima de nossas cabeças.
E o Brasil está exatamente no meio de uma das melhores regiões do planeta para acompanhar essa história.
Perguntas frequentes
O que é a Anomalia Magnética do Atlântico Sul?
A AMAS é uma extensa região sobre a América do Sul e o Atlântico Sul onde o campo magnético terrestre possui intensidade menor do que em áreas próximas. Essa configuração permite que partículas energéticas cheguem a altitudes menores.
A anomalia magnética sobre o Brasil é perigosa?
Para pessoas vivendo na superfície, não há atualmente indicação de perigo direto. Os principais riscos são para satélites e equipamentos espaciais que atravessam a região.
A Anomalia Magnética do Atlântico Sul está aumentando?
Sim. Dados da ESA mostram que, entre 2014 e 2025, a região enfraquecida expandiu-se por uma área equivalente a quase metade da Europa continental.
A AMAS pode fazer o celular parar de funcionar?
Não há evidência de que a presença da AMAS faça celulares comuns pararem de funcionar na superfície. Os efeitos diretos documentados estão concentrados principalmente em satélites e instrumentos espaciais expostos à radiação de partículas.
A anomalia significa que os polos magnéticos vão se inverter?
Não necessariamente. Inversões magnéticas fazem parte da história geológica da Terra, mas os cientistas não possuem evidência de que uma nova inversão seja iminente.
Por que a anomalia fica sobre o Brasil?
Sua localização está relacionada à configuração do campo magnético terrestre, à inclinação do eixo magnético e aos movimentos do material metálico no núcleo externo. Estruturas de fluxo magnético reverso no interior da Terra também contribuem para o enfraquecimento observado.



