Quando Jim Stevenson e Tara Tanaka decidiram comprar um pântano de aproximadamente 18 hectares nos arredores de Tallahassee, na Flórida, o objetivo não era construir uma casa, abrir um negócio ou esperar pela valorização do terreno. O casal queria garantir que aquela área alagada continuasse sendo exatamente o que era: um pedaço de natureza cercado pelo avanço urbano.
A compra aconteceu em 2007. Quinze anos mais tarde, em 2022, o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos (USFWS) registrava no santuário nada menos que 275 cegonhas-americanas em período de nidificação, além de várias outras espécies de aves e mamíferos.
O que poderia ter desaparecido com o desenvolvimento imobiliário se transformou em um exemplo de como a proteção de uma propriedade relativamente pequena pode fazer diferença para um ecossistema inteiro.
E a história ganhou outro capítulo em 2026: a população de cegonha-americana do sudeste dos Estados Unidos foi oficialmente retirada da lista federal de espécies ameaçadas após décadas de recuperação.
Um pântano ao lado de casa mudou o destino do casal
Jim Stevenson trabalhou como biólogo no sistema estadual de parques da Flórida. Tara Tanaka, por sua vez, tornou-se fotógrafa e videomaker especializada em vida selvagem.
Os dois já moravam próximos ao pântano de ciprestes quando perceberam que aquela área poderia acabar sendo alterada pelo avanço da ocupação urbana.
Em 2007, compraram os cerca de 45 acres, equivalentes a pouco mais de 18 hectares, que ficavam junto à propriedade onde viviam.
Não demorou para que o local deixasse de ser apenas um terreno particular e passasse a funcionar, na prática, como um refúgio de fauna.
Anos antes de a compra ser concluída, Stevenson já entrava no pântano de canoa para retirar manualmente plantas invasoras que prejudicavam as áreas utilizadas pelas aves para se alimentar. Depois que o casal assumiu o controle da propriedade, esse trabalho de manejo continuou.
O número que mostrou o tamanho da transformação
A principal protagonista da recuperação da área é a Mycteria americana, chamada nos Estados Unidos de wood stork e conhecida no Brasil principalmente como cabeça-seca — também chamada de cegonha-americana.
A espécie depende fortemente de áreas úmidas para se alimentar e reproduzir.
Em 2022, o USFWS informou que o santuário mantido por Stevenson e Tanaka abrigava 275 cegonhas-americanas em nidificação.
Esse detalhe também esclarece a cronologia da história: os “15 anos depois” correspondem ao intervalo entre a compra, em 2007, e esse levantamento realizado em 2022.
Hoje, em 2026, já se passaram 19 anos desde a aquisição do terreno.
O número de cegonhas não foi o único sinal de recuperação. Garças-azuis-grandes, garças-brancas, garças-verdes, biguatingas, marrecas e colhereiros também passaram a utilizar o ambiente.
Mamíferos como lontras, castores, coiotes, guaxinins, linces e raposas foram registrados na propriedade.
Jacarés também ajudam a proteger as aves
Um dos aspectos mais curiosos daquele ecossistema é o papel desempenhado pelos jacarés.
Para uma pessoa, a presença desses animais sob árvores cheias de ninhos pode parecer uma ameaça. Para as cegonhas, porém, ela também oferece proteção.
A espécie costuma formar colônias em árvores cercadas por água. Nesses locais, os jacarés ajudam a afastar guaxinins, que poderiam subir até os ninhos para capturar ovos e filhotes.
O próprio USFWS destaca essa relação ecológica: quando há água suficiente sob as árvores, os jacarés podem dificultar o acesso desses predadores terrestres.
Isso não significa que os jacarés sejam “guardiões” das cegonhas. A relação é consequência do funcionamento natural daquele ambiente.
É justamente esse equilíbrio que o casal tentou preservar.
Manter o pântano saudável exige trabalho
Comprar o terreno foi apenas o primeiro passo.
O pântano precisa permanecer em condições adequadas para as espécies que dependem dele. Isso significa controlar vegetação invasora, preservar áreas abertas de água e acompanhar as mudanças no nível do alagamento.
Stevenson realiza queimadas prescritas em áreas próximas como ferramenta de manejo. Quando ilhas de vegetação flutuante crescem demais e começam a ocupar a superfície da água, equipamentos mecânicos são utilizados para removê-las.
O manejo tem uma razão prática.
As cegonhas procuram alimento caminhando por águas relativamente rasas. O bico fica parcialmente submerso e se fecha rapidamente quando encontra peixes e outros pequenos animais.
Se a vegetação fecha a área ou se o comportamento da água muda demais, o ambiente pode deixar de oferecer boas condições de alimentação.
O USFWS resume essa dependência de forma simples: condições de água adequadas concentram peixes e aumentam a disponibilidade de alimento no momento em que os adultos precisam sustentar seus filhotes.
Pântanos não beneficiam apenas animais
A importância da propriedade vai além das aves que aparecem nas fotografias de Tara Tanaka.
Áreas úmidas exercem funções ambientais importantes.
No caso do pântano preservado pelo casal, a vegetação ajuda a absorver parte dos nutrientes e contaminantes carregados pela água que escoa de ruas e terrenos próximos.
A região também está ligada ao sistema do Aquífero Floridano, uma enorme reserva subterrânea de água utilizada no sudeste dos Estados Unidos.
Stevenson explicou à emissora pública WFSU que existem sumidouros no pântano capazes de levar água para o aquífero e que parte dela também infiltra naturalmente pelo solo.
Por isso, preservar um ambiente como esse não significa apenas conservar pássaros. A manutenção das áreas úmidas pode contribuir para a qualidade da água e para o funcionamento de sistemas naturais dos quais cidades inteiras dependem.
Proteção foi feita para continuar mesmo no futuro
Havia ainda uma preocupação: o que aconteceria com o pântano quando a propriedade mudasse de mãos?
Em 2016, um mecanismo jurídico aumentou a proteção do local.
A Apalachee Land Conservancy estabeleceu uma servidão de conservação sobre a propriedade. Esse tipo de acordo restringe permanentemente determinadas formas de desenvolvimento, mesmo que o terreno continue pertencendo a particulares.
Na prática, limita atividades residenciais, comerciais ou industriais incompatíveis com os objetivos de conservação.
O acordo foi estabelecido em caráter permanente, segundo o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos.
Assim, a preservação não depende apenas da vontade dos atuais donos.
A cegonha-americana quase desapareceu de áreas dos Estados Unidos
O sucesso observado no pântano de Tallahassee faz parte de uma recuperação muito maior.
Durante a década de 1930, havia cerca de 20 mil pares reprodutivos de cegonhas-americanas nos Everglades. Na década de 1970, a população havia caído para menos de 5 mil pares.
A destruição e alteração de áreas úmidas estavam entre os principais fatores responsáveis pela queda.
Em 1984, a população dos Estados Unidos foi incluída na lista de espécies ameaçadas pela legislação federal.
Décadas de proteção e recuperação de habitats ajudaram a mudar a trajetória.
Em 2014, a classificação havia melhorado de “em perigo” para “ameaçada”. Finalmente, em 9 de março de 2026, entrou em vigor a retirada da população do sudeste dos Estados Unidos da lista federal de animais ameaçados e em perigo de extinção.
Segundo o USFWS, existem atualmente entre 10 mil e 14 mil pares reprodutivos distribuídos por aproximadamente 100 colônias nos Estados Unidos.
Isso representa mais que o dobro da quantidade de pares registrada quando a espécie recebeu proteção federal.
Pequenas propriedades também podem ter grande impacto ambiental
O caso de Stevenson e Tanaka mostra por que terrenos particulares ganharam importância dentro das estratégias de conservação.
Segundo o USFWS, proprietários privados possuem aproximadamente 70% das terras da América do Norte. Desde 2005, projetos desenvolvidos em propriedades privadas do sudeste dos Estados Unidos já recuperaram milhares de acres de habitat utilizados pelas cegonhas e por outras espécies.
Nem todo terreno precisa se transformar em um parque público para contribuir com a conservação.
Áreas privadas protegidas, corredores ecológicos, reservas, servidões ambientais e projetos de recuperação podem conectar habitats e criar locais de alimentação ou reprodução próximos às cidades.
Foi exatamente isso que aconteceu próximo a Tallahassee.
O terreno comprado em 2007 continua contando a mesma história
O que começou com uma decisão incomum — gastar dinheiro para que um pântano permanecesse sendo um pântano — acabou produzindo um resultado que pode ser medido nas copas dos ciprestes.
São centenas de aves em uma área que poderia ter seguido outro destino.
O trabalho de Jim Stevenson e Tara Tanaka não foi responsável sozinho pela recuperação da cegonha-americana nos Estados Unidos. O avanço da espécie é resultado de décadas de projetos públicos e privados espalhados por vários estados.
Mas os 18 hectares preservados pelo casal mostram como esses esforços se somam.
A imagem talvez seja a melhor explicação: onde poderia haver uma área profundamente alterada pela ocupação humana, hoje existem ciprestes cercados por água, jacarés circulando abaixo deles e centenas de aves utilizando as árvores para criar uma nova geração.
Para um terreno comprado com a intenção de simplesmente não deixar a natureza desaparecer, o resultado foi muito além disso.
Perguntas frequentes
Onde fica o pântano comprado pelo casal?
A propriedade de Jim Stevenson e Tara Tanaka fica nos arredores de Tallahassee, capital do estado da Flórida, nos Estados Unidos.
Quando Jim Stevenson e Tara Tanaka compraram o terreno?
O casal comprou os aproximadamente 45 acres, equivalentes a pouco mais de 18 hectares, em 2007.
Existem realmente 275 cegonhas no local?
O Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos informou em 2022 que o santuário abrigava 275 cegonhas-americanas em nidificação. Portanto, o número se refere ao levantamento divulgado naquele ano, 15 anos após a compra.
Qual é a espécie das cegonhas?
Trata-se da Mycteria americana, conhecida nos Estados Unidos como wood stork. No Brasil, o nome popular mais utilizado para a espécie é cabeça-seca.
A cegonha-americana ainda está ameaçada de extinção nos Estados Unidos?
Não na lista federal norte-americana. A população do sudeste dos Estados Unidos foi oficialmente retirada da lista de espécies ameaçadas em março de 2026, após o governo concluir que houve recuperação suficiente da população.
O terreno continua sendo propriedade do casal?
Sim. Uma servidão de conservação estabelecida em 2016 permite que a área permaneça privada, mas impõe restrições permanentes destinadas a impedir usos incompatíveis com sua conservação.




