O barulho do ronco que incomoda quem dorme ao lado pode parecer um fenômeno simples, mas os mecanismos físicos responsáveis por produzir esse som ainda guardam questões importantes para a ciência. Uma nova pesquisa utilizou um modelo tridimensional das vias aéreas superiores para observar, em detalhes, como o ar e os tecidos moles interagem durante a respiração.

O estudo foi conduzido por pesquisadores do Instituto Real de Tecnologia KTH, na Suécia, e publicado em 18 de agosto de 2026 na revista científica Physics of Fluids. A equipe desenvolveu uma simulação capaz de representar simultaneamente o fluxo de ar, o movimento dos tecidos e a produção do som.

Os resultados colocaram o palato mole, localizado na parte posterior do céu da boca, no centro do fenômeno. Quando o ar passa pela região, esse tecido pode entrar em uma oscilação contínua. A interação entre o movimento do palato e as variações no fluxo de ar pode, então, produzir o som característico do ronco.

A pesquisa não apresenta uma cura definitiva para o problema. No entanto, oferece uma maneira mais detalhada de compreender sua origem física e pode ajudar estudos futuros a avaliar estratégias destinadas a diminuir a vibração dos tecidos.

Cientistas criaram uma garganta virtual para estudar o ronco

Para investigar o fenômeno, os pesquisadores precisavam observar algo que é extremamente difícil de medir diretamente enquanto uma pessoa está dormindo.

Modelo reproduziu as vias aéreas superiores

A equipe criou uma representação computacional tridimensional simplificada da região conhecida como sistema uvulopalatal, que inclui estruturas relacionadas ao palato mole e à úvula.

O modelo permitiu acompanhar o ar circulando pela passagem respiratória ao mesmo tempo em que os tecidos respondiam às forças exercidas por esse fluxo.

Essa interação é importante porque o movimento ocorre nos dois sentidos: o ar exerce força sobre o palato e provoca sua movimentação, enquanto o próprio movimento do tecido altera novamente a passagem do ar.

Simulação também calculou a produção do som

O diferencial do trabalho foi não analisar apenas o fluxo de ar isoladamente.

Os pesquisadores integraram três componentes:

  • passagem dinâmica do ar;
  • movimentação do tecido mole;
  • geração acústica.

Abordagem tenta aproximar os fenômenos

Segundo o pesquisador Peng Li, muitos trabalhos anteriores simplificam a respiração ou deixam de considerar integralmente a interação entre movimento do tecido, fluxo e som.

A intenção da nova simulação foi justamente estudar esses elementos de forma conjunta.

Palato mole aparece como peça importante do ronco

O céu da boca não possui a mesma estrutura em toda sua extensão.

Parte anterior da boca é rígida

A região que começa atrás dos dentes é conhecida como palato duro. Ela possui uma estrutura firme e separa as cavidades oral e nasal.

Mais ao fundo, entretanto, essa superfície rígida termina.

Palato mole é mais flexível

Na parte posterior surge o palato mole, composto por tecido flexível.

Essa característica permite que a região se movimente durante atividades como respirar, engolir e falar.

Durante o sono, porém, a combinação entre relaxamento dos tecidos e passagem de ar pode favorecer vibrações.

Vibração pode produzir o som

Foi justamente esse comportamento que os pesquisadores procuraram reproduzir.

No modelo computacional, o palato entrou em uma oscilação repetitiva e autossustentada enquanto o ar continuava passando pela região.

Fluxo de ar irregular contribuiu para sons mais intensos

A análise mostrou que o ruído não depende simplesmente de uma corrente de ar atravessando um tubo.

Ar e tecido interagem continuamente

À medida que o palato se movimenta, ele modifica o espaço disponível para o ar passar.

Essa mudança interfere na velocidade e na pressão do fluxo.

O novo padrão do ar exerce novamente forças sobre o tecido, criando um ciclo.

Oscilação pode se manter durante a respiração

Em termos físicos, o palato pode atingir um estado de oscilação contínua enquanto houver condições adequadas de fluxo.

Esse mecanismo ajuda a explicar por que o ronco pode produzir sons repetitivos durante vários ciclos respiratórios.

Fenômeno lembra funcionamento de instrumentos

Uma comparação possível é com instrumentos que utilizam uma palheta.

O fluxo de ar mantém uma estrutura flexível vibrando, e essa movimentação gera ondas sonoras.

A analogia não significa que a garganta funcione exatamente como um instrumento musical, mas ajuda a visualizar o mecanismo identificado pela simulação.

Estudo investigou de onde vem o barulho

Outro objetivo foi descobrir qual mecanismo acústico exercia maior influência.

Movimento entre ar e tecido teve papel dominante

Na configuração estudada, as forças associadas à interação entre o fluxo e o tecido em movimento foram apontadas como a principal fonte do som.

Os resultados indicam que a chamada fonte acústica dipolar foi predominante no modelo.

Turbulência não explicou sozinha o fenômeno

É comum associar o ronco simplesmente a um fluxo turbulento de ar.

A nova análise, entretanto, sugere uma situação mais complexa para o tipo específico de ronco estudado.

Na simulação, o componente acústico relacionado diretamente à turbulência teve participação muito menor do que o processo associado ao movimento do tecido.

Resultado vale para o modelo analisado

Essa conclusão precisa ser interpretada dentro das condições do estudo.

A anatomia humana varia consideravelmente e diferentes estruturas podem contribuir para o ronco em pessoas diferentes.

Simulação chegou a níveis elevados de ruído

A intensidade do ronco também chamou atenção nas análises do modelo.

Som chegou a aproximadamente 75 decibéis

Relatos sobre a pesquisa indicam que as simulações produziram níveis próximos de 75 decibéis durante a inspiração e cerca de 69 decibéis durante a expiração.

Para comparação, uma conversa comum costuma ficar em uma faixa significativamente audível, o que ajuda a entender por que roncos fortes conseguem prejudicar o sono de outras pessoas no mesmo ambiente.

Ronco não incomoda apenas quem está ao lado

Mesmo quando não existe apneia obstrutiva do sono, roncos frequentes podem afetar a qualidade do descanso do casal ou de outras pessoas que compartilham o quarto.

Intensidade varia de pessoa para pessoa

O volume produzido no mundo real depende de fatores como anatomia, posição durante o sono, propriedades dos tecidos e características da passagem de ar.

Portanto, os valores encontrados na simulação não significam que todo indivíduo que ronca produza a mesma intensidade sonora.

Pesquisa estudou ronco sem apneia obstrutiva do sono

Uma distinção importante é que o trabalho se concentrou especificamente no chamado ronco palatal não apneico.

Via aérea permaneceu aberta na simulação

O objetivo era estudar a produção de som provocada pelo palato sem reproduzir o fechamento repetido da via aérea característico da apneia obstrutiva do sono.

Ronco e apneia não são a mesma coisa

Uma pessoa pode roncar sem apresentar apneia.

Por outro lado, ronco alto e frequente também pode estar presente em indivíduos com distúrbios respiratórios do sono.

Pausas na respiração merecem avaliação

Ronco acompanhado por interrupções perceptíveis da respiração, engasgos durante a noite ou sonolência excessiva durante o dia pode justificar avaliação profissional.

A simulação sueca não foi desenvolvida para diagnosticar ou tratar apneia do sono.

Descoberta pode ajudar no estudo de tratamentos

Compreender exatamente como o ruído surge é importante porque diferentes mecanismos podem exigir estratégias diferentes.

Reduzir a vibração aparece como possibilidade

Peng Li explicou que os resultados sugerem que diminuir a vibração do palato mole ou alterar as forças aerodinâmicas instáveis que atuam sobre o tecido pode contribuir para reduzir determinados tipos de ronco.

Essa hipótese pode auxiliar na avaliação científica de intervenções que modificam a mecânica do palato ou a maneira como o ar circula.

Rigidez do palato será investigada

Uma das próximas etapas previstas pela equipe é alterar virtualmente a rigidez do tecido.

Os cientistas querem analisar como diferentes níveis de rigidez interferem em aspectos como:

  • amplitude das vibrações;
  • frequência das oscilações;
  • padrão do fluxo de ar;
  • intensidade das fontes sonoras.

Palato mais rígido pode vibrar de maneira diferente

A hipótese é que modificar as propriedades mecânicas do tecido altere seu comportamento quando submetido ao fluxo respiratório.

Entretanto, os pesquisadores ainda precisam realizar novas simulações antes de estabelecer conclusões mais específicas.

Modelo ainda não representa completamente uma garganta humana

Apesar do nível de detalhamento, os próprios pesquisadores reconhecem limitações importantes.

Geometria utilizada foi simplificada

A simulação não foi criada a partir da anatomia específica de cada paciente.

Em vez disso, os cientistas utilizaram uma representação simplificada das vias aéreas.

Tecidos reais são mais complexos

Uma garganta verdadeira possui paredes flexíveis, diferentes tipos de tecidos, variações anatômicas e estruturas capazes de interagir de maneiras que um modelo computacional não consegue reproduzir integralmente.

Simulação não equivale a teste clínico

Os resultados explicam mecanismos físicos possíveis, mas não demonstram que determinado tratamento funcionará em pacientes.

Os pesquisadores afirmam que o modelo ainda é simplificado demais para fornecer recomendações terapêuticas detalhadas.

Por que entender o mecanismo do ronco é importante?

O ronco é extremamente comum, mas não existe uma única causa aplicável a todos os casos.

Diferentes regiões podem gerar vibração

Em algumas pessoas, o palato pode ter participação importante.

Em outras, língua, paredes da faringe e outras estruturas podem contribuir para a obstrução ou vibração.

Identificar a região responsável pelo ruído pode ser fundamental para compreender por que determinada pessoa ronca.

Modelos virtuais podem acelerar pesquisas

Uma das vantagens das simulações é permitir que cientistas modifiquem parâmetros individualmente.

É possível, por exemplo, deixar virtualmente um tecido mais rígido e observar como todo o sistema reage.

Experimentos seriam difíceis em pessoas

Alterar artificialmente propriedades anatômicas apenas para descobrir seu impacto na geração do som seria muito mais complicado em estudos humanos.

No computador, diferentes cenários podem ser testados de maneira controlada antes de pesquisas clínicas.

Estudo foi publicado na Physics of Fluids

O trabalho tem como autores Peng Li, Marco Laudato e Mihai Mihaescu, ligados ao KTH Royal Institute of Technology, em Estocolmo.

O artigo científico recebeu o título Computational analysis of palatal non-apneic snoring sound generation using a simplified human upper-airway model e foi publicado em 18 de agosto de 2026 na revista Physics of Fluids.

Pesquisa une engenharia, acústica e saúde

O estudo mostra como ferramentas normalmente associadas à engenharia podem ser usadas para compreender processos do corpo humano.

Conceitos de dinâmica dos fluidos, mecânica estrutural e acústica foram reunidos para investigar uma situação vivenciada diariamente por milhões de pessoas.

Próximas etapas podem tornar modelos mais realistas

O avanço das simulações poderá permitir a inclusão de anatomias mais complexas e propriedades diferentes dos tecidos.

Isso pode ajudar a explicar por que um determinado mecanismo produz roncos intensos em algumas pessoas e não em outras.

Perguntas frequentes sobre o ronco e o novo modelo

O que os cientistas descobriram sobre o ronco?

A simulação mostrou que a interação entre o fluxo de ar e a vibração do palato mole pode ser uma fonte dominante de som no ronco palatal não associado à apneia.

Onde fica o palato mole?

Ele fica na parte posterior do céu da boca, depois da região rígida conhecida como palato duro.

Por que o palato pode roncar?

Por ser flexível, o tecido pode vibrar quando submetido à passagem do ar. A interação contínua entre o movimento do palato e o fluxo respiratório pode gerar som.

O estudo encontrou uma cura para o ronco?

Não. A pesquisa buscou compreender a física por trás do fenômeno e não testou um tratamento em pacientes.

Deixar o palato mais rígido pode acabar com o ronco?

Ainda não é possível afirmar isso. Os pesquisadores pretendem testar virtualmente como alterações na rigidez interferem na vibração e no som.

Roncar significa ter apneia do sono?

Não necessariamente. O estudo analisou justamente o ronco palatal sem apneia. Entretanto, roncos intensos acompanhados de pausas respiratórias ou outros sintomas podem precisar de avaliação médica.

Simulação ajuda a explicar um barulho conhecido por milhões de pessoas

O ronco pode parecer apenas o resultado de tecidos relaxados vibrando durante o sono, mas a nova pesquisa mostra que existe uma dinâmica física mais sofisticada por trás do som.

Ao criar um modelo tridimensional capaz de combinar fluxo respiratório, movimento do palato e geração acústica, os pesquisadores conseguiram observar como pequenas alterações na passagem do ar podem manter o tecido em vibração contínua.

O palato mole apareceu como uma estrutura decisiva no tipo de ronco estudado, enquanto a interação entre o tecido e o fluxo teve papel importante na produção do ruído.

O modelo ainda não reproduz toda a complexidade das vias aéreas humanas e não oferece uma solução pronta para quem ronca. Mesmo assim, abre uma nova possibilidade para investigar o problema: testar virtualmente diferentes características dos tecidos e do fluxo de ar antes de levar essas hipóteses para estudos clínicos.

As próximas análises deverão se concentrar justamente na rigidez do palato. Se os pesquisadores conseguirem identificar quais propriedades aumentam ou reduzem a vibração, a ciência poderá entender melhor por que alguns roncos são tão altos — e quais mecanismos precisam ser modificados para diminuí-los.