O mais novo grande telescópio espacial da NASA carrega o nome de uma mulher que ajudou a tornar possível a própria ideia de observar o Universo a partir do espaço. Nancy Grace Roman foi a primeira chefe de astronomia da agência espacial norte-americana, enfrentou resistência por ser mulher em uma área dominada por homens e teve papel decisivo no projeto que décadas depois se transformaria no telescópio Hubble.
Agora, seu nome viaja pelo espaço no Nancy Grace Roman Space Telescope, lançado pela NASA em 30 de agosto de 2026 a bordo de um foguete Falcon Heavy, da SpaceX. O observatório seguirá até uma região a cerca de 1,5 milhão de quilômetros da Terra e deverá investigar alguns dos maiores mistérios da astronomia moderna, entre eles matéria escura, energia escura e planetas fora do Sistema Solar.
A homenagem ganha um significado especial porque Roman dedicou boa parte da carreira justamente a defender grandes observatórios espaciais. Sua atuação foi tão importante para o Hubble que colegas passaram a chamá-la de “mãe do Hubble”.
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Quem foi Nancy Grace Roman?
Nancy Grace Roman nasceu em 16 de maio de 1925, em Nashville, no estado norte-americano do Tennessee. Seu interesse pelo céu começou ainda na infância.
Aos 11 anos, enquanto morava em Reno, Nevada, ela organizou com colegas um pequeno clube de astronomia. O grupo usava livros para aprender sobre constelações e outros objetos celestes. Ainda durante a adolescência, Roman decidiu que queria transformar aquela curiosidade em profissão.
O caminho, porém, estava longe de ser simples.
Na época em que Roman começou a estudar, poucas mulheres conseguiam construir carreiras duradouras nas ciências exatas. Ela própria relatou ter sido desencorajada diversas vezes a seguir astronomia e física.
Mesmo assim, formou-se em astronomia pelo Swarthmore College em 1946 e obteve o doutorado pela Universidade de Chicago em 1949.
Antes da NASA, Roman já estudava estrelas
Após o doutorado, Nancy Roman permaneceu por aproximadamente seis anos ligada à Universidade de Chicago, trabalhando principalmente no Observatório Yerkes e realizando observações também no Observatório McDonald, no Texas.
Foi nesse período que uma de suas pesquisas chamou atenção da comunidade científica.
Ao estudar a estrela AG Draconis, Roman identificou uma mudança significativa em seu espectro de emissão quando comparado com observações anteriores. O resultado ajudou a fortalecer sua reputação como pesquisadora.
Sua carreira acadêmica, no entanto, esbarrou em uma realidade comum às pesquisadoras daquele período: as possibilidades de conseguir uma posição permanente eram muito menores para mulheres.
A própria NASA relata que Roman percebeu que dificilmente receberia estabilidade acadêmica na Universidade de Chicago devido ao seu gênero. Ela decidiu então buscar outra trajetória profissional.
A mudança para a radioastronomia abriu um novo caminho
Entre 1955 e 1959, Roman trabalhou no Naval Research Laboratory, laboratório de pesquisas da Marinha dos Estados Unidos.
Ali, entrou em uma área relativamente nova naquele período: a radioastronomia.
Roman trabalhou com espectros de fontes de rádio e pesquisas geodésicas e chegou a chefiar a seção de espectroscopia de micro-ondas. A experiência aproximou a cientista de engenheiros e grandes projetos tecnológicos, algo que seria fundamental pouco tempo depois dentro da NASA.
E foi justamente quando a agência espacial norte-americana ainda dava seus primeiros passos que surgiu a oportunidade responsável por mudar sua carreira.
Nancy Roman chegou à NASA poucos meses após a criação da agência
A NASA havia sido criada em 1958.
No início de 1959, cerca de seis meses depois do nascimento da agência, Nancy Grace Roman entrou para a organização com a missão de ajudar a desenvolver um programa de astronomia espacial.
Ela se tornou a primeira mulher a ocupar um cargo executivo na NASA e também a primeira chefe de astronomia da agência.
Era uma posição com enorme responsabilidade.
Roman ajudava a planejar programas envolvendo satélites e foguetes, administrava recursos destinados a pesquisas astronômicas e mantinha contato com cientistas que buscavam novas maneiras de estudar o Universo.
Foi nesse ambiente que começou a ganhar força uma ideia ambiciosa: colocar um grande telescópio acima da atmosfera terrestre.
Por que colocar um telescópio no espaço era tão importante?
Telescópios instalados na superfície da Terra precisam observar o Universo através da atmosfera.
Embora observatórios terrestres sejam extremamente importantes, a atmosfera pode absorver determinados comprimentos de onda e distorcer parte da luz proveniente do espaço.
Um telescópio colocado acima dela poderia realizar observações sem essa interferência atmosférica.
Hoje a ideia parece natural. Na década de 1960, porém, construir um grande observatório espacial era um projeto extremamente caro, complexo e difícil de justificar politicamente.
Nancy Roman tornou-se uma das pessoas responsáveis por transformar esse conceito em um programa real.
Como Nancy Roman ajudou a criar o Hubble?
A participação de Roman no nascimento do Hubble foi muito além da pesquisa científica.
Durante cerca de duas décadas, ela trabalhou para convencer pesquisadores, administradores da NASA, autoridades do governo e membros do Congresso dos Estados Unidos de que um grande telescópio espacial valeria o investimento.
Roman liderou comitês científicos e de planejamento, aproximou engenheiros de astrônomos e participou das decisões que definiam quais capacidades o futuro telescópio deveria possuir.
O projeto era chamado inicialmente de Large Space Telescope.
Conseguir dinheiro para construí-lo se tornou um dos principais desafios.
Segundo a NASA, Roman atuou diretamente na busca por aprovação e financiamento do Congresso. Ela ajudou a definir requisitos científicos mínimos para que o projeto continuasse relevante mesmo diante de pressões para reduzir custos.
Décadas depois, esse observatório receberia outro nome: Hubble Space Telescope.
Por que ela ficou conhecida como “mãe do Hubble”?
O apelido surgiu por causa do papel desempenhado por Roman durante os anos iniciais do projeto.
O astrônomo Lyman Spitzer havia defendido durante décadas a construção de um grande telescópio fora da atmosfera e ficou associado à ideia como uma espécie de “pai” do Hubble.
Edward Weiler, que posteriormente ocupou importantes cargos científicos na NASA, passou então a chamar Nancy Roman de “mãe do Hubble”, reconhecendo sua atuação na transformação do projeto em realidade.
Roman não construiu o Hubble sozinha, evidentemente. O telescópio foi resultado do trabalho de milhares de cientistas, engenheiros e instituições ao longo de décadas.
Sua contribuição esteve principalmente em criar as condições científicas, políticas e administrativas para que o projeto pudesse existir.
O Hubble só seria lançado anos depois de sua aposentadoria
Nancy Roman deixou a NASA em 1979.
O telescópio Hubble seria lançado apenas em abril de 1990, mais de uma década depois.
Roman, portanto, assistiu de fora da agência ao projeto pelo qual havia trabalhado durante tantos anos finalmente chegar ao espaço.
Ela continuou acompanhando de perto a missão e suas descobertas.
Curiosamente, quando foi questionada sobre qual descoberta do Hubble considerava mais interessante, Roman escolheu justamente a energia escura, relacionada à expansão acelerada do Universo.
Décadas depois, essa mesma questão se tornaria um dos principais objetivos científicos do telescópio que receberia seu nome.
Por que a NASA colocou o nome de Nancy Roman no novo telescópio?
Em 2020, a NASA anunciou que o então chamado Wide Field Infrared Survey Telescope, conhecido pela sigla WFIRST, passaria a se chamar Nancy Grace Roman Space Telescope.
A mudança reconhecia não apenas sua contribuição para o Hubble, mas seu papel mais amplo no desenvolvimento da astronomia espacial norte-americana.
Roman ajudou a consolidar uma visão que hoje orienta boa parte da astronomia moderna: grandes observatórios espaciais capazes de produzir dados para pesquisadores de diferentes áreas.
A NASA afirma que sua influência ultrapassou o Hubble e ajudou a estabelecer as bases de seu programa de Grandes Observatórios, do qual fizeram parte missões como Chandra, Compton e Spitzer.
O novo telescópio Roman já está no espaço
A homenagem ganhou uma nova dimensão em 30 de agosto de 2026.
Às 7h26 no horário da costa leste dos Estados Unidos, o Nancy Grace Roman Space Telescope decolou do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, transportado por um Falcon Heavy.
Após o lançamento, o observatório iniciou uma viagem de aproximadamente três meses em direção ao ponto de Lagrange L2 do sistema Sol-Terra.
Essa região fica a aproximadamente 1,5 milhão de quilômetros do nosso planeta, no lado oposto ao Sol, e também é utilizada por outros observatórios espaciais por oferecer condições favoráveis para observações astronômicas.
A NASA espera divulgar as primeiras imagens científicas do Roman no início de 2027, depois que os instrumentos forem testados e calibrados.
Roman e Hubble têm algo importante em comum
A ligação entre Nancy Roman, Hubble e o novo observatório não é apenas simbólica.
O espelho principal do Roman possui 2,4 metros de diâmetro, exatamente o mesmo tamanho do espelho primário do Hubble.
Mas os dois telescópios foram projetados para observar o Universo de maneiras diferentes.
Enquanto o Hubble consegue produzir imagens extremamente detalhadas de áreas relativamente pequenas, o Roman combina resolução semelhante no infravermelho com um campo de visão muito maior.
Seu instrumento principal poderá observar uma área do céu pelo menos 100 vezes maior que a capturada pelo Hubble em uma única exposição comparável.
Isso permitirá estudar populações gigantescas de estrelas e galáxias em vez de apenas objetos individuais.
Uma câmera de 300 megapixels para mapear o Universo
O principal instrumento científico do observatório é o Wide Field Instrument, ou WFI.
Ele funciona como uma enorme câmera astronômica de aproximadamente 300 megapixels.
A combinação entre resolução e campo de visão permitirá que o Roman examine o céu até mil vezes mais rapidamente do que o Hubble em determinados tipos de levantamento.
A NASA estima que, ao longo da missão, o instrumento poderá medir luz proveniente de cerca de 1 bilhão de galáxias.
É justamente a análise de números tão grandes que permitirá investigar fenômenos difíceis de compreender quando apenas alguns poucos objetos são observados.
O que o telescópio Nancy Grace Roman vai procurar?
Entre os principais objetivos científicos estão três temas que permanecem entre os maiores mistérios da astronomia.
Energia escura
As observações indicam que a expansão do Universo está acelerando.
Os cientistas usam o termo energia escura para descrever o fenômeno responsável por essa aceleração, mas sua natureza ainda não é conhecida.
Ao mapear bilhões de galáxias e medir como a estrutura do Universo mudou ao longo de bilhões de anos, o Roman poderá ajudar a restringir diferentes explicações para o fenômeno.
Matéria escura
Outra parte importante do Universo não pode ser vista diretamente.
A matéria escura não emite luz, mas sua presença pode ser percebida por seus efeitos gravitacionais.
O Roman deverá usar diferentes técnicas para mapear como essa matéria invisível está distribuída pelo cosmos.
Planetas fora do Sistema Solar
O observatório também deverá realizar um grande levantamento estatístico de sistemas planetários da Via Láctea.
Isso poderá revelar milhares de mundos e ajudar os astrônomos a entender quais tipos de planetas são mais comuns em nossa galáxia.
Além disso, um instrumento coronográfico demonstrará tecnologias capazes de bloquear a luz intensa de estrelas para observar diretamente planetas próximos e discos onde novos mundos podem estar se formando.
Roman produzirá uma quantidade inédita de dados
O campo de visão gigantesco terá uma consequência prática: o volume de informações produzido também será enorme.
Segundo a NASA, o Roman deverá transmitir aproximadamente 1,4 terabyte de dados científicos por dia, o maior volume diário entre as missões de astrofísica da agência até agora.
A quantidade será tão grande que técnicas de aprendizado de máquina, inteligência artificial e até projetos envolvendo cientistas cidadãos deverão ajudar na identificação de eventos interessantes.
Esse modelo também reflete uma ideia defendida por Nancy Roman durante sua carreira: tornar os dados de grandes observatórios úteis para uma comunidade científica ampla.
A NASA informa que os dados da missão serão disponibilizados publicamente, sem um período exclusivo para apenas um grupo de pesquisadores.
Um legado que atravessou gerações de telescópios
Nancy Grace Roman morreu em 25 de dezembro de 2018, aos 93 anos.
Ela não chegou a ver o telescópio que leva seu nome partir para o espaço.
Mas acompanhou praticamente toda a transformação da astronomia espacial que ajudou a iniciar.
Quando começou sua carreira, grandes telescópios orbitais ainda eram projetos considerados extremamente ambiciosos. Ao final de sua vida, Hubble já havia transformado a compreensão humana sobre galáxias, estrelas, planetas e a própria expansão do Universo.
Agora, o Roman deverá ampliar essa visão.
Se o Hubble foi construído para enxergar profundamente pequenos pedaços do céu, o novo telescópio foi feito para observar o panorama inteiro.
E talvez essa seja uma homenagem especialmente adequada à cientista que passou a carreira defendendo que a astronomia precisava olhar além dos limites que pareciam possíveis.
Perguntas frequentes
Quem foi Nancy Grace Roman?
Nancy Grace Roman foi uma astrônoma norte-americana, primeira chefe de astronomia e primeira mulher a ocupar um cargo executivo na NASA. Ela teve papel decisivo no desenvolvimento inicial do telescópio Hubble.
Por que Nancy Grace Roman é chamada de “mãe do Hubble”?
O apelido reconhece sua atuação na defesa do projeto que se tornaria o Hubble. Roman articulou cientistas e engenheiros e trabalhou durante anos para conseguir apoio político e financiamento para o observatório.
Quando Nancy Grace Roman nasceu?
Ela nasceu em 16 de maio de 1925, em Nashville, Tennessee, nos Estados Unidos.
Quando Nancy Grace Roman morreu?
A astrônoma morreu em 25 de dezembro de 2018, aos 93 anos.
Quando o telescópio Nancy Grace Roman foi lançado?
O observatório foi lançado pela NASA em 30 de agosto de 2026, a bordo de um foguete Falcon Heavy, da SpaceX.
Qual é a diferença entre o Roman e o Hubble?
Os dois possuem espelhos principais de 2,4 metros. O Roman, porém, possui um campo de visão pelo menos 100 vezes maior em observações infravermelhas comparáveis, permitindo mapear regiões muito maiores do céu rapidamente.
O que o telescópio Roman vai estudar?
Entre os principais objetivos estão energia escura, matéria escura, evolução de galáxias e exoplanetas.
Quando serão divulgadas as primeiras imagens do Roman?
A NASA prevê divulgar as primeiras imagens após a fase de testes e calibração, no início de 2027.




