Saturno acaba de ganhar um novo mistério atmosférico. Observações do Telescópio Espacial Hubble revelaram uma gigantesca estrutura de dez lados no polo sul do planeta, formando uma espécie de decágono desenhado pelas próprias nuvens e correntes de ar.
O fenômeno chama atenção não apenas pelo formato quase geométrico. A estrutura parece ter surgido recentemente, ocupa uma região colossal da atmosfera e pode oferecer aos cientistas uma oportunidade rara: acompanhar praticamente em tempo real o nascimento e a evolução de um dos padrões meteorológicos mais incomuns já observados em um planeta do Sistema Solar.
A descoberta também coloca uma nova peça em um antigo quebra-cabeça. Saturno já era famoso por possuir um enorme hexágono no polo norte, observado há mais de quatro décadas. Até agora, porém, nenhum equivalente persistente havia sido identificado no hemisfério sul.
O que o Hubble encontrou no polo sul de Saturno
O novo fenômeno é uma onda atmosférica de dez lados inserida em uma poderosa corrente de jato que circula a região polar sul de Saturno.
As imagens mostram uma sequência de curvas e vértices que, quando vistas de cima do polo, formam aproximadamente um decágono. Não se trata de uma superfície sólida ou de uma estrutura física escondida nas nuvens. O desenho é produzido pelo movimento organizado da própria atmosfera.
A NASA afirma que essa é a primeira vez que um padrão de corrente de jato com tantos lados regulares é observado no hemisfério sul do planeta. Além disso, as imagens feitas em diferentes comprimentos de onda indicam que a onda atravessa múltiplas camadas atmosféricas.
Isso é particularmente importante. Se o desenho aparecesse somente em determinada camada de nuvens, poderia representar apenas uma característica superficial e temporária. O fato de sua assinatura aparecer em diferentes altitudes sugere um fenômeno atmosférico mais profundo e organizado.
A estrutura chega a cerca de 167,8 mil km de extensão
As dimensões ajudam a mostrar a escala do fenômeno.
Cada um dos dez segmentos associados ao decágono tem aproximadamente 16,8 mil quilômetros, levando a uma extensão total próxima de 167,8 mil quilômetros quando os lados são considerados em conjunto.
Por isso, é importante não interpretar os 167,8 mil quilômetros como o diâmetro do fenômeno. O número representa aproximadamente a extensão acumulada do contorno formado pelos dez lados.
A dimensão de apenas um desses segmentos já ultrapassa o diâmetro da Terra, que é de aproximadamente 12,7 mil quilômetros.
O tamanho impressionante é compatível com as escalas meteorológicas encontradas nos gigantes gasosos. Em mundos como Saturno e Júpiter, tempestades, correntes de jato e sistemas de nuvens podem permanecer ativos por anos ou mesmo décadas.
O decágono pode ter surgido recentemente
Talvez a característica mais intrigante da descoberta seja sua aparente juventude.
Pesquisadores analisaram observações do Hubble realizadas ao longo de vários anos e encontraram indícios do padrão desde 2023. Imagens obtidas por astrônomos amadores começaram a chamar atenção para uma faixa ondulada na região polar sul em 2024, enquanto registros feitos em 2025 tornaram o desenho ainda mais evidente.
Os cientistas não haviam encontrado uma estrutura semelhante nas observações anteriores.
A sonda Cassini, que permaneceu em órbita de Saturno entre 2004 e 2017, estudou detalhadamente o planeta e não identificou um decágono duradouro naquela região. Isso reforça a possibilidade de que a formação tenha aparecido ou se intensificado posteriormente.
Amy Simon, pesquisadora da NASA e uma das autoras do trabalho, destacou justamente esse ponto: o fenômeno parece estar ficando mais evidente, permitindo aos cientistas acompanhar a evolução de uma grande estrutura atmosférica desde seus estágios iniciais.
Por que ninguém havia visto o decágono antes?
A resposta envolve as estações do ano em Saturno.
O eixo de rotação do planeta é inclinado, assim como o da Terra. Como consequência, Saturno também passa por estações. Existe, entretanto, uma diferença enorme na duração delas.
O planeta leva aproximadamente 29,5 anos terrestres para completar uma volta ao redor do Sol. Isso significa que cada estação saturniana dura vários anos.
Durante parte desse ciclo, o polo sul ficou em condições desfavoráveis para observações feitas a partir da Terra. À medida que as estações avançaram entre 2023 e 2025, o hemisfério sul tornou-se novamente mais acessível aos telescópios.
Segundo pesquisadores da Universidade de Leicester, essa região também está emergindo de mais de uma década de condições associadas ao inverno austral.
Alguma coisa aparentemente mudou durante esse período.
E descobrir exatamente o quê é agora uma das principais perguntas.
Astrônomos amadores tiveram papel importante na descoberta
O caso também mostra como a astronomia profissional e a amadora podem trabalhar juntas.
A Universidade do País Basco mantém o Planetary Virtual Observatory Laboratory, uma base que reúne imagens dos planetas do Sistema Solar realizadas por observadores espalhados pelo mundo.
Foi nesse conjunto de observações que Agustín Sánchez-Lavega, principal autor do estudo, e os astrônomos amadores Trevor Barry e Jean-Paul Oger perceberam em 2024 uma ondulação incomum na região polar sul.
Novas imagens obtidas em 2025 fortaleceram a suspeita.
Os dados do Hubble foram então fundamentais para confirmar a estrutura, porque o observatório espacial consegue produzir imagens sem a distorção provocada pela atmosfera terrestre.
Ao recuperar registros anteriores, a equipe constatou que o fenômeno já deixava sinais nas observações de 2023.
Ventos chegam a cerca de 400 km/h
O decágono está inserido em uma corrente de jato extremamente veloz.
As medições indicam velocidades máximas próximas de 400 quilômetros por hora na corrente atmosférica associada à estrutura. O próprio padrão de dez lados, entretanto, desloca-se muito mais lentamente em relação à rotação do planeta, em torno de 10 km/h.
Essa diferença é uma pista importante.
O desenho não corresponde simplesmente a uma massa de nuvens sendo transportada pelo vento. Ele se comporta como uma onda atmosférica, um padrão organizado que consegue se manter mesmo enquanto o gás ao seu redor circula muito mais rapidamente.
Fenômenos semelhantes podem surgir quando correntes de jato sofrem oscilações ou interagem com outras estruturas atmosféricas.
O desafio é descobrir por que, em Saturno, essas ondas conseguem assumir formas geométricas tão marcantes.
Saturno já tem um famoso hexágono no polo norte
A comparação inevitável é com o hexágono de Saturno.
As sondas Voyager 1 e Voyager 2 observaram a região polar norte durante suas passagens pelo planeta em 1980 e 1981. Análises posteriores revelaram uma gigantesca corrente de jato formando seis lados praticamente regulares ao redor do polo.
O mais surpreendente é sua longevidade.
O hexágono permaneceu visível por mais de 40 anos e já sobreviveu por mais de um ano completo de Saturno, equivalente a quase três décadas terrestres.
Durante todo esse tempo, os cientistas procuraram um equivalente no hemisfério sul.
Não encontraram.
Agora há uma estrutura poligonal no outro polo, mas ela possui dez lados e comportamento diferente.
Decágono parece menos estável que o hexágono
As imagens do Hubble mostram outra diferença importante.
Nem todos os vértices do decágono possuem a mesma definição. Alguns aparecem com mais clareza enquanto outros são mais discretos. Para os pesquisadores, isso pode indicar que a formação ainda está se organizando ou que é menos estável do que o hexágono do polo norte.
Essa possibilidade torna as próximas observações especialmente valiosas.
Se o padrão desaparecer nos próximos anos, os cientistas poderão estudar como uma onda atmosférica desse porte se desfaz.
Caso aconteça o contrário e o decágono se torne cada vez mais definido, será possível observar como uma estrutura desse tipo evolui até atingir um estado mais estável.
Nos dois cenários, Saturno funcionará como um enorme laboratório natural de dinâmica atmosférica.
O que pode formar um polígono em uma atmosfera?
Ninguém está sugerindo que exista algum mecanismo produzindo literalmente linhas retas nas nuvens de Saturno.
As formas aparecem como consequência das leis da física dos fluidos.
Correntes de jato são faixas estreitas de gás que circulam rapidamente pela atmosfera. Em determinadas condições, essas correntes podem desenvolver ondulações. Quando a onda permanece presa ao redor de uma latitude, o padrão visto sobre o polo pode adquirir vários lados.
Modelos computacionais já conseguiram reproduzir comportamentos semelhantes em fluidos.
No caso do novo decágono, pesquisadores estudam a possibilidade de uma onda sinuosa confinada por uma corrente de jato curvada. A presença de um vórtice nas proximidades também é investigada como possível participante do mecanismo.
Por enquanto, entretanto, não existe uma explicação definitiva para o aparecimento repentino da estrutura.
Observações no infravermelho revelaram outra parte do fenômeno
O Hubble não foi o único instrumento utilizado.
Observações realizadas pelo Very Large Telescope, do Observatório Europeu do Sul, permitiram aos pesquisadores estudar a temperatura da atmosfera na região do decágono.
O instrumento VISIR conseguiu observar diferentes níveis da atmosfera no infravermelho, oferecendo informações sobre a estabilidade atmosférica e sobre como a velocidade dos ventos varia com a altitude.
Esses dados ajudam a construir uma visão tridimensional do fenômeno.
Enquanto as imagens visíveis mostram o desenho das nuvens, medições térmicas permitem investigar as condições físicas responsáveis por manter aquela estrutura.
Por que o decágono de Saturno é tão importante para a ciência?
O objetivo não é apenas compreender uma curiosidade de Saturno.
Gigantes gasosos possuem atmosferas governadas por processos extremos, mas algumas das mesmas leis físicas também atuam na Terra.
Entender como grandes correntes de jato desenvolvem ondas, vórtices e instabilidades pode aperfeiçoar modelos utilizados para estudar atmosferas planetárias de maneira geral.
Há ainda uma questão maior.
Saturno parece ser especialmente eficiente em produzir ondas atmosféricas com formas poligonais bem definidas. Júpiter possui arranjos de ciclones em seus polos, inclusive configurações aproximadamente pentagonais e octogonais, mas o mecanismo é diferente.
Os pesquisadores querem descobrir se existe alguma ligação física entre esses fenômenos ou se Saturno possui características atmosféricas únicas.
Hubble e James Webb devem acompanhar o fenômeno
A história do decágono está longe de terminar.
A equipe pretende continuar observando Saturno para verificar se a estrutura permanecerá estável, ficará mais definida ou desaparecerá.
O Hubble continuará sendo importante porque o programa OPAL — Outer Planet Atmospheres Legacy — registra regularmente os grandes planetas externos, permitindo comparar alterações que acontecem ao longo de muitos anos.
O Telescópio Espacial James Webb também poderá contribuir. Suas observações no infravermelho podem ajudar a revelar temperaturas, composição e características presentes em diferentes camadas da atmosfera.
Esse acompanhamento é essencial porque os cientistas podem estar diante de algo bastante raro: o nascimento de uma gigantesca estrutura atmosférica planetária enquanto ela ainda está acontecendo.
E Saturno pode demorar anos para revelar se o seu novo decágono será apenas um visitante temporário ou se poderá rivalizar com o famoso hexágono do outro polo.
Perguntas frequentes
O que é o decágono encontrado em Saturno?
É uma gigantesca onda atmosférica com aproximadamente dez lados observada ao redor do polo sul de Saturno. A estrutura está associada a uma poderosa corrente de jato e aparece em diferentes níveis da atmosfera.
Quando o decágono de Saturno foi descoberto?
Astrônomos identificaram sinais em imagens feitas desde 2023. Observações amadoras chamaram atenção para a estrutura em 2024, e registros posteriores do Hubble e de telescópios terrestres confirmaram o fenômeno.
Qual é o tamanho do decágono de Saturno?
Cada um dos dez lados tem aproximadamente 16,8 mil quilômetros. Considerados em conjunto, os segmentos chegam a cerca de 167,8 mil quilômetros de extensão.
Saturno também possui um hexágono?
Sim. Uma gigantesca estrutura hexagonal existe no polo norte de Saturno e é observada há mais de quatro décadas. O novo fenômeno no polo sul possui dez lados e aparentemente é mais recente.
Os cientistas sabem como o decágono se formou?
Ainda não. A principal linha de investigação envolve ondas produzidas em uma corrente de jato, possivelmente influenciadas por vórtices e pelas condições atmosféricas locais. Novas observações serão necessárias para determinar o mecanismo exato.
Sugestões de links internos
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