Quem observa o centro de Goiânia do alto encontra um detalhe que pode passar despercebido para quem circula diariamente pelas ruas da capital: três grandes avenidas foram desenhadas para conduzir o olhar e o movimento em direção ao mesmo ponto.

As avenidas Goiás, Araguaia e Tocantins convergem para a Praça Cívica, no coração do núcleo original da cidade. O desenho não surgiu por acaso. Ele fazia parte do plano elaborado pelo urbanista Attílio Corrêa Lima nos anos 1930 e buscava dar monumentalidade ao centro administrativo da nova capital de Goiás.

A inspiração incluía referências clássicas do urbanismo internacional, entre elas Versalhes, na França, Karlsruhe, na Alemanha, e Washington, nos Estados Unidos. O recurso era conhecido como patte d’oie, expressão francesa que pode ser traduzida como “pata de ganso”: três vias que se abrem ou convergem em direção a um ponto de destaque.

Vista décadas depois, a geometria permanece incorporada a uma cidade que cresceu muito além das dimensões imaginadas por seus primeiros planejadores.

Goiânia nasceu no papel antes de ganhar suas primeiras ruas

A história desse desenho começa quando Goiás decidiu transferir sua capital.

Em dezembro de 1932, foi criada uma comissão para escolher a área onde seria construída a nova cidade. O local selecionado ficava próximo ao então povoado de Campinas, numa região às margens do córrego Botafogo.

No ano seguinte, Pedro Ludovico Teixeira encarregou Attílio Corrêa Lima de projetar a futura capital.

A pedra fundamental foi lançada em 24 de outubro de 1933, no local onde surgiria o centro administrativo da cidade. A escolha daquele ponto era decisiva: a área mais elevada deveria receber os principais edifícios do governo e funcionar como referência visual para quem chegasse a Goiânia.

Não se tratava simplesmente de abrir ruas e dividir terrenos.

O projeto procurava definir onde as pessoas morariam, por onde circulariam, onde funcionaria o comércio e, principalmente, onde estaria representado o poder público.

Três avenidas apontavam diretamente para o centro do poder

O elemento mais fácil de reconhecer no desenho original é justamente o conjunto formado pelas avenidas Goiás, Araguaia e Tocantins.

As três convergem para a Praça Cívica.

A Avenida Goiás ocupa a posição central, enquanto Araguaia e Tocantins se afastam em ângulos diferentes, produzindo a composição radial característica do centro histórico. Documentos acadêmicos sobre o projeto descrevem esse arranjo como uma estrutura que resulta visualmente em uma forma triangular.

A escolha também tinha uma função simbólica.

Attílio queria que o centro administrativo dominasse a perspectiva urbana. Ao percorrer aquelas avenidas, o cidadão deveria ter como referência o ponto onde estavam instalados os prédios do governo.

Em outras palavras, a Praça Cívica não foi posicionada apenas no centro de um sistema viário.

Ela foi planejada para ser protagonista.

Por que a Praça Cívica ficou justamente naquele ponto?

A topografia ajudou a determinar a escolha.

Attílio Corrêa Lima aproveitou a elevação natural do terreno para destacar o centro administrativo. Estudos sobre o projeto mostram que as três avenidas principais chegavam justamente à porção mais alta do núcleo planejado.

Ali seria construído o Palácio das Esmeraldas, sede do governo estadual.

Essa organização permitia criar perspectivas amplas. Quem estivesse nas principais avenidas conseguia direcionar o olhar para o espaço cívico.

O recurso era bastante utilizado em projetos urbanos monumentais.

Por isso, quando Goiânia é observada de cima, percebe-se que a geometria das ruas não corresponde apenas a uma preocupação com trânsito. Ela também fazia parte de uma composição visual.

Versalhes está entre as referências do desenho de Goiânia

A comparação com Versalhes não é apenas uma interpretação feita décadas depois.

A literatura sobre o plano urbano registra que Attílio Corrêa Lima citou referências como Versalhes, Karlsruhe e Washington ao explicar a busca por um efeito monumental para Goiânia.

O conceito mais associado a esse desenho é o patte d’oie.

Nesse modelo, grandes vias formam eixos que convergem para um ponto central considerado especialmente importante — um palácio, uma praça, um monumento ou uma sede administrativa.

Em Versalhes, esse princípio ajudava a reforçar visualmente a importância do complexo palaciano.

Em Goiânia, foi adaptado a outra realidade: a construção de uma nova capital brasileira no Centro-Oeste durante o século XX.

A própria Prefeitura de Goiânia apresenta oficialmente o traçado radial da capital como semelhante ao princípio adotado em Versalhes.

O projeto não foi uma simples cópia francesa

Dizer que Goiânia foi “copiada de Versalhes”, entretanto, seria uma simplificação.

Attílio combinou diferentes referências urbanísticas com as características do terreno e as necessidades da cidade que estava nascendo.

Seu plano considerava sistema viário, zoneamento, circulação de veículos, topografia e distribuição das atividades urbanas.

Além das referências francesas, há registros da influência de Karlsruhe e Washington.

Depois, Armando Augusto de Godoy participou do desenvolvimento do planejamento e introduziu outros princípios, entre eles conceitos relacionados às cidades-jardim, associados ao urbanista britânico Ebenezer Howard.

O resultado foi uma combinação de diferentes escolas urbanísticas.

É por isso que o centro apresenta simultaneamente vias radiais, quadras mais regulares e avenidas transversais.

A Avenida Paranaíba fecha parte da geometria percebida do alto

Existe ainda outro elemento fundamental para compreender a forma do centro: a Avenida Paranaíba.

Ela foi aberta transversalmente às três avenidas principais e servia para conectar a região do Parque Botafogo ao antigo aeroporto.

No desenho histórico, sua forma ajuda a delimitar visualmente o sistema formado pelas avenidas que partem da Praça Cívica.

Isso explica por que imagens aéreas podem dar ao centro a aparência de uma grande figura geométrica.

Já a Avenida Anhanguera atravessa os três eixos e assumiu outra função importante na circulação da cidade.

Assim, o que parece um desenho simples quando visto do alto é, na realidade, uma combinação cuidadosamente planejada de vias com funções diferentes.

Até os nomes das avenidas carregam referências a Goiás

A geografia do estado também foi incorporada aos nomes das vias.

Araguaia, Tocantins e Paranaíba remetem aos grandes rios ligados ao território goiano. Quando Goiânia foi planejada, o atual Estado do Tocantins ainda fazia parte de Goiás — a separação só ocorreria décadas depois.

A Prefeitura destaca justamente essa associação entre o traçado urbano e a geografia estadual.

A Avenida Goiás, por sua vez, recebeu o nome que acabou se tornando um dos mais conhecidos da capital.

Originalmente, o eixo chegou a ser denominado Avenida Pedro Ludovico, mas posteriormente passou a ser identificado como Avenida Goiás.

Goiânia foi planejada inicialmente para apenas 50 mil moradores

Outro detalhe ajuda a dimensionar como a cidade mudou.

O planejamento inicial previa uma Goiânia para aproximadamente 50 mil habitantes.

Naquele momento, seria impossível antecipar completamente a velocidade da expansão urbana que ocorreria nas décadas seguintes.

A chegada da ferrovia, a interiorização econômica do país e posteriormente a construção de Brasília ajudaram a acelerar o crescimento regional.

Segundo o histórico da Prefeitura, em 1965 Goiânia já reunia cerca de 150 mil habitantes, três vezes a população imaginada para o projeto inicial.

A cidade continuaria se expandindo muito além do núcleo original.

Novos bairros, avenidas e centros comerciais alteraram profundamente sua escala.

Mas a geometria dos anos 1930 continuou registrada no coração da capital.

O centro também foi pensado para transmitir modernidade

O urbanismo era apenas uma parte do projeto.

Nos prédios, a nova capital adotou fortemente o Art Déco, linguagem arquitetônica associada naquele período a ideias de modernidade, geometria e progresso.

O estilo aparece em construções históricas como o Palácio das Esmeraldas, o Coreto da Praça Cívica, o Teatro Goiânia e a Torre do Relógio da Avenida Goiás.

Havia uma mensagem política e cultural por trás dessa escolha.

Goiânia não estava sendo construída apenas para substituir a antiga capital. Ela deveria simbolizar uma nova fase de Goiás, ligada à modernização e à ocupação econômica do interior brasileiro.

O próprio Iphan relaciona a criação da cidade ao contexto de interiorização do desenvolvimento que se intensificou durante o período de Getúlio Vargas.

Parte desse desenho hoje é protegida como patrimônio

A importância histórica do centro ultrapassou a escala municipal.

O Acervo Arquitetônico e Urbanístico Art Déco de Goiânia recebeu proteção federal e inclui tanto edifícios quanto partes da estrutura viária derivada do plano original de Attílio Corrêa Lima.

O conjunto reúne 22 edifícios e monumentos públicos, concentrados principalmente no centro da capital e no núcleo pioneiro de Campinas.

Em 2024, o Iphan publicou regras específicas para intervenções na região.

A norma determina, entre outros pontos, que seja preservada a hierarquia da Praça Cívica como elemento irradiador e que sejam mantidas as perspectivas das vias que convergem em sua direção, com destaque para as avenidas Goiás, Tocantins e Araguaia.

Isso significa que o próprio desenho das ruas é considerado parte do patrimônio.

Não são apenas os edifícios antigos que precisam ser preservados.

Existe algum significado secreto no triângulo de Goiânia?

A geometria do centro também alimentou, ao longo dos anos, interpretações sobre supostos símbolos escondidos no projeto.

Uma das teorias mais conhecidas associa o triângulo formado pelas avenidas a referências maçônicas.

Não há, porém, documentação histórica consistente que sustente essa explicação.

Pesquisadores e especialistas consultados em levantamentos sobre o tema destacam que as fontes existentes apontam para razões urbanísticas: influência do desenho monumental europeu, aproveitamento da topografia, circulação e valorização visual do centro administrativo.

A explicação registrada pelo próprio autor do projeto é muito mais concreta.

O objetivo era fazer as avenidas convergirem para o centro administrativo e reforçar sua importância dentro da nova capital.

A Avenida Goiás deveria funcionar como um grande boulevard

Entre os três eixos, a Avenida Goiás recebeu tratamento especial.

Ela foi concebida como uma avenida larga e monumental, ligando a Praça Cívica em direção ao norte do núcleo central.

Documentos históricos mencionam que sua dimensão permitiria inclusive a realização de manifestações e festas cívicas.

Posteriormente, o eixo passou a estabelecer uma perspectiva entre a Praça Cívica e a região da Estação Ferroviária.

Essa característica ainda pode ser percebida por quem percorre a avenida.

O cenário mudou, os prédios cresceram e o trânsito se intensificou, mas o eixo permanece legível.

O que a vista aérea revela que a rua esconde

No nível do chão, o centro de Goiânia pode parecer resultado de décadas de crescimento espontâneo.

São cruzamentos, ônibus, comércio, edifícios, semáforos e pessoas circulando em diferentes direções.

Do alto, a lógica muda.

A Praça Cívica aparece como um ponto de referência e as grandes avenidas revelam a estrutura planejada por trás do cotidiano.

É justamente esse contraste que torna o desenho tão curioso.

Quase um século depois de Attílio Corrêa Lima colocar as primeiras linhas no papel, a cidade cresceu, mudou de escala e deixou para trás a população inicialmente prevista de 50 mil habitantes.

Mesmo assim, basta observar o centro de cima para reconhecer a ideia original: uma capital organizada em torno de um núcleo cívico, com grandes avenidas conduzindo diretamente até ele.

O que hoje parece apenas uma curiosidade geométrica era, nos anos 1930, parte de um projeto muito maior de construção de uma capital moderna no coração do Brasil.

Perguntas frequentes

Quais são as três avenidas que convergem para a Praça Cívica de Goiânia?

São as avenidas Goiás, Araguaia e Tocantins. Elas fazem parte do traçado original do centro planejado nos anos 1930.

Goiânia foi realmente inspirada em Versalhes?

O projeto de Attílio Corrêa Lima utilizou princípios urbanísticos presentes em Versalhes, especialmente a convergência de grandes vias para um ponto monumental. Karlsruhe e Washington também são citadas entre as referências do urbanista.

Quem planejou Goiânia?

O primeiro projeto urbano foi elaborado por Attílio Corrêa Lima a partir de 1933. Posteriormente, Armando Augusto de Godoy participou do desenvolvimento do planejamento e do Plano Diretor.

O que significa patte d’oie?

É uma expressão francesa usada no urbanismo para descrever um conjunto de vias que se abrem ou convergem a partir de um ponto comum, produzindo uma forma semelhante a uma pata de ave.

Por que a Praça Cívica foi escolhida como centro do projeto?

O local ocupava uma posição elevada e deveria concentrar os principais edifícios administrativos da nova capital. As grandes avenidas foram organizadas para reforçar visualmente sua importância.

Goiânia foi planejada para quantos habitantes?

O projeto inicial previa uma cidade para aproximadamente 50 mil moradores.

O centro histórico de Goiânia é tombado?

Parte do conjunto arquitetônico e urbanístico da cidade possui proteção federal pelo Iphan. O acervo inclui edifícios Art Déco e trechos da estrutura viária remanescente do plano urbano original.